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Noites

07/12/2010

Era uma noite fria, mentira, a noite estava absurdamente quente, mas dentro tudo continuava frio e o choque térmico acontecia na carne comprimida entre a realidade e a mente perturbada. Ele continuava sentado totalmente inerte, olhava para as paredes gastas e pra janela aberta que não refrescava. Sentia uma necessidade incontrolável por mudanças, mas mudar o quê? A resposta é sempre a mesma, aquela coisa de curso da vida, atividades e o caralho que ouvia de todo mundo.

Não queria mudar isso, queria, mas não era isso que incomodava, ele dizia para todos que tinha aquela ferpa inflamada cravada dentro da sua alma, profundo, o conceito, não a farpa, mas era mentira, um floreio. Ele na verdade achava que era remorso, um tipo especial, aquele de quem desperdiça oportunidades e perde tudo, estraga tudo, o que é pior ainda pra quem poderia ter o que quisesse. Mas uma coisa ele tinha aprendido, remorso não resolve passado, pode motivar futuro, mas o passado não muda, logo, não tinha solução, e talvez aquele fosse o fim. Não o fim, até por que aquilo acontecia todos os dias, ou quase, quase sempre na mesma hora, a hora morta, não universalmente morta, a sua hora morta, que pra ele era o período entre o sono chegar e após esgotar todas as possibilidades para o dia, às vezes durava quinze minutos ou um dia todo. Foda quando era o dia todo, sempre dava uma vontade de olhar longamente o céu pela janela escancarada, e filho da puta nenhum deve fazer isso, pois parece que o ele vai te engolir, e engole alguns, pra depois vomitar no chão 17 andares abaixo, mas não ele, estava acima disso.

Sua mente divagava em uns frascos vazios, acende um cigarro por costume e esquece aceso no cinzeiro, a fumaça incomoda e ele apaga, torna a acender e o ritual se repete por alguns instantes até que acaba fumando. Enquanto fuma procura contatos no telefone, por tédio também, até por que não quer ver ninguém. Chegou a conclusão recente que pessoas dão muito trabalho e sugam sua energia, pensa em virar biólogo e viver recluso no meio de umas plantas venenosas, mas liga pro primeiro número que o seu dedo esbarra, número que por muito tempo esteve gravado em sua mente, uma voz feminina atende preguiçosa.

- Amor.
- Talvez o de hoje.
- Quer companhia?
- Tava pensando, é isso ou ir dormir e tou sem sono.
- Chego em trinta.
- Pensando bem, não venha. – Mas quando disse isso ela já não ouvia mais, falou com o ar entre o ouvido delicado dela e a bolsa, e ficou por isso mesmo.

Desligou puto, queria ficar sozinho, era disso que sua mente falava, mas vivia se boicotando, não se entendendo categoricamente. Era confuso até no próprio querer, e por isso objetivos eram coisas que não entravam bem na sua cabeça, como saberia o que querer em cinco anos se mal sabe o que quer para daqui trinta minutos? Queria mandar a sociedade para o caralho, quando diziam que ele devia ter planos se queria chegar a algum lugar, pra quê, se tanto filho da mãe sem alma descobre que não era ali que queria estar quando chega. Tava bem ali, parado, bom, não estava bem, mas pelo menos não tinha trabalho para estar mal.

Quinze minutos, resolveu tomar uma ducha, colocou a água bem fria para se sentir um pouco vivo. Enquanto se secava a campainha tocou, pelo menos quatro vezes até que ele foi atender de toalha.

Estava linda, exatamente como se lembrava de anos atrás, perfumada. Não disse nada, nem ela, se olharam, se beijaram, sem palavras, não precisavam mais, repetição, mãos, pernas, ritual e o fizeram até sobrar somente corpos e mentes vazios lado a lado. Sentia saudade dela, a capacidade que tinha de desligá-lo, lembrou-se de mais um dos seus delitos… E ela é só mais uma de suas perdas.

4 Comentários leave one →
  1. 07/12/2010 02:55

    Demais metamurphy !

  2. 07/12/2010 11:24

    Olha só, e não é que ficou buniiito! Tá, confesso, um pouco mórbido demais essa depressão induzida. Ah, enquanto você descrevia a cena do encontro eu imaginei aquela trilha sonora “eu te uso, você me usa, então tira minha blusa…” kkk

  3. 07/12/2010 11:34

    Eu te uso e você me usa

    Então tira a minha blusa

    Eu te quero até de manhã

    Vem tira meu sutiã

    De manhã, de tarde a noitinha

    Então tira minha sainha

    Eu ganhei minha tchutchuquinha

  4. 07/12/2010 11:36

    Oi tchutchuca, tive um sonho com você

    E como foi seu sonho me conta quero saber

    Assim…só eu e você numa sala,
    Vamos brincar de rima,
    Aquele que não souber, vai tirando a roupinha

    Eu te uso e você me usa

    Então tira a minha blusa

    Eu te quero até de manhã

    Vem tira meu sutiã

    De manhã, de tarde a noitinha

    Então tira minha sainha

    Eu ganhei minha tchutchuquinha

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