Miriela no Espelho
Duas mulheres andam pelas ruas de uma cidade em ruínas. Elas caminham calmamente, o vento cheio de fumaça açoita seus corpos, mas elas não parecem perceber. Elas não olham ao redor, não param para observar, apenas caminham. Estão absortas em uma conversa.
As chamas no céu pintam a terra com cores alienígenas e os corpos no chão parecem carbonizados pelo calor infernal. Mas as duas mulheres parecem não sentir. Elas conversam entre elas, sem ligar se estão sendo ouvidas ou não.
- Este mundo está decadente, Miriela. Nós caminhamos sobre o que resta da humanidade e ainda insiste em dizer que não acabou?
Annabella olha para a outra, sua expressão dura, raivosa.
- Annabella, parece que não conhece como as coisas se movem nesta existência, neste mundo. O que estamos vendo é apenas mais um passo para um fim ainda pior. Tudo que vimos desde nossas concepções não se equipara ao que está por vir.
- Sabe que soa louca? Tal destruição, essa que nos cerca, não é o ápice? Os céus queimam com as chamas do inferno, a terra morta com os passos de seres inomináveis. Humanos caindo esfacelados pelo tempo. Tudo está desintegrando e ainda dize que pode piorar? As guerras dos humanos parecem tão pequenas diante do que se passou!
As duas pararam diante de uma montanha de corpos. Eram pedaços soltos de pessoas, cabeças braços e pernas empilhadas. Torsos estavam em outra parte.
- Olha bem, Miriela. Como pode dizer que ainda não chegamos no fim? Se não é o fim da humanidade, então, o que?
Miriela balança a cabeça, os longos cabelos louros balançam suavemente.
- Não, Annabella. A humanidade está morta há muito. Me refiro à destruição de tudo que é e será. Todas as coisas morrem, até mesmo nós.
Annabella dá de ombros e as duas voltam a andar, deixando a pilha grotesca para trás.
- Ainda não entendo por que me chamou para caminhar entre os mortos deste cenário tão deprimente.
Annabella conhecia Miriela e tal jogada não era digna de alguém em sua posição. Era manipulação barata e Miriela não fazia o tipo.
- Não tenho nenhuma meta secreta, Annabella. Apenas quero lhe contar algo. Algo que me atormenta desde a morte de nosso senhor.
Annabella parou de andar e segurou a Miriela pelo braço. Fosse outro ser, tal braço teria sido arrancado pela força de sua mão.
- Deus é vivo, Miriela. Blasfemar está aquém de você.
Miriela desvencilhou-se.
- Não há pecado se não há alguém para dizer tal. Deus morreu nas mãos do inimigo. O maior de todos.
Ambas tremem ao lembrarem do ser destrutivo que causara tanta dor e morte. Seu nome agora era sinônimo de morte e destruição.
- Ele sumiu, Miriela. Nós vencemos.
Miriela riu alto. Seu riso doce ecoou pelo vale de morte que era a cidade deserta.
- Annabella, ingenuidade não lhe cai bem. O evento a que se refere foi uma derrota frustrante. Aquele ser apareceu no campo de batalha e virou a maré. Passou por nossas hordas sem sequer parar para respirar e ainda matou o general. Dizer que foi uma vitória não é só errado como absurdo!
Annabella corou. Ela sabia que era tudo verdade.
- Mas esquece-se que um dos nossos despachou o ser logo depois? Ou não acredita nas palavras dos nossos?
Miriela abriu um sorriso malicioso. Elas andavam agora entre escombros de edifícios um dia majestosos.
- O que lhe disse agora há pouco? Não há mais pecado desde que nosso senhor morreu. Annabella, a mentira entre o coro é algo comum desde os tempos do trono vazio. Nem eu sei o que aconteceu de verdade. Mas ele ainda é. O ser, digo.
Annabella estremeceu novamente.
- Isso não pode ser verdade. O que se passou nos últimos tempos, lembra? O Juiz e todas as mortes. Como pode dizer que ele ainda é?
Miriela pareceu entristecer por um momento. Seu rosto jovial e sadio pareceu pesar com a idade milenar.
- Sim, ele é mais esperto do que qualquer um já foi. Todas as vezes que ele parecia cair era apenas pelo esporte. Não há graça em poder ilimitado e ele sabe disso. Prefere limitar suas capacidades a um ponto onde existem desafios ainda.
- E de onde sai tanto poder, Miriela? Como pode tal ser chegar a tamanho poder? Pois saiba que eu não creio em suas palavras.
- Como desejava que estivesse correta, Annabella. Infelizmente eu sei a verdade até certo ponto. O fim de tudo, eu vi. Por isso sei que tamanha desgraça não se equipara. É por isso que estou triste. Sei o que virá ainda.
Annabella parou novamente, desta vez consumida pela curiosidade e pela simpatia que sentia pela outra.
- Então conta. Foi para isso que me trouxe aqui. Para pôr em perspectiva o que viu, não é?
Miriela novamente pareceu envelhecer milhares de anos enquanto seus ombros caiam.
- Eu vi tudo, Annabella. Desde o início até o fim. E para nosso desespero, o Ser existe desde o início e ele será o último. O inimigo é eterno e todo poderoso.
- Insinua que ele é nosso verdadeiro senhor? – perguntou Annabella espantada.
Miriela balançou a cabeça energicamente.
- De forma alguma. Ele não passa de um desgraçado. Um infeliz. Triste dele que existe desde antes da criação e há de existir depois do fim. Sinto pena dele.
- Sente pena do Ser que a tudo destrói?
Houve um momento de silêncio em que o vento fumegante carregava o som das chamas estalando. Haviam ecos de tiros ao longe, gritos de agonia ainda eram discerníveis no vazio da existência.
- Estamos nesse momento graças ao mesmo que dizem ter eliminado o Ser. Ele nos trouxe aqui. E tudo pela manipulação do Ser. Ele que já viu tudo e sabe de tudo. Minha sabedoria quanto ao que foi e o que será não se compara à dele.
- Então conta, como conseguiu tal sabedoria? Apenas nosso senhor sabia de tudo.
- Nosso senhor sabia tudo pois lhe foi dado como presente pelos verdadeiros criadores de nossa existência, a capacidade de entender tudo. Existe um ser maior que Deus, aquele que o criou.
Miriela olhou Annabella nos olhos brancos. Havia juventude ainda a ser queimada pela pequena criação diante dela.
- Eu olhei naquilo que chamamos de Tomo. E nele vi muitas coisas.
A expressão de Annabella mantinha-se passiva.
- Eu vi o espelho. Um espelho, um fragmento perfurar carne. Eu vi o momento da criação, onde o tempo parou e a carne sentiu que era o momento de dar vida à imaginação. Eu vi o momento em que se formou esse nosso Universo Vermelho.
O uivo do vento pareceu diminuir, como se quisesse ouvir as palavras de Miriela.
- Eu vi o Ser gargalhando triunfante ao ser liberto da carne que o encerrava. Os anos se passaram, o Universo ganhou vida e forma tão rápido que ainda estávamos presos à carne. Quando nos soltamos, muito já havia ocorrido. O tempo passado eram milênios de mudanças. Eu vi mundos diferentes e iguais ao mesmo tempo. Um mundo vermelho como o Universo que habita. Eu vi cinco ilhas perdidas no mar. Eu vi dois homens viajando pelo fundo vermelho. Eu vi anjos e demônios lutando do mesmo lado contra algo maior. Eu vi seres fantásticos em templos opostos e grandes batalhas. Eu vi seres tão diferentes daquilo que sonhamos. Vi seres que apenas imaginamos por diversão, vivendo serenamente. Vi anjos tão cruéis que seriam dignos do Ser. Vi homens com dados jogando com vidas alheias. Eu vi vinte seres tão especiais que um mundo inteiro se movia para eles. Vi uma grade na qual pontos coloridos iam e vinham. Homens que se deslocavam no tempo. Um futuro sombrio. Piratas no espaço. Eu vi seres das profundezas do espaço devorarem sistemas inteiros sem remorso. Vi tantas outras abominações em seus lares. Um homem que mudou um mundo para melhor. Um homem que perdeu seu rumo em um ano. Um homem que nasceu para matar seu pai. Um grupo de homens envoltos em tramas que não entendem. Vi um futuro sombrio, cheio de nuvens negras. Caravanas em busca do sol. E por fim, um vazio. Algo faltando, como se algo faltasse no rumo da história. E por fim, eu vi a cortina cair sobre essa tragédia toda.
Annabella agora olhava horrorizada. Miriela respirou fundo. Lágrimas rolavam de seus olhos.
- Eu vi o fim de tudo. Um vazio negro avermelhado repleto de rochas, nada vivo. E o Ser existindo, esperando pacientemente enquanto uma chuva vermelha o cobria. Vi ele abrir um sorriso tão maldoso, tão cheio de ódio e sede de destruição e dor alheia que me pareceu que ele fosse responsável por todas as desgraças do mundo, todas as dores. Vi ele sentir prazer ao ver o universo ser, inexoravelmente, esmagado contra algo que ainda não entendo o que pode ser. Ele foi o primeiro e irá sorrir no momento em que deixar de ser.
Não haviam palavras para confortar Miriela. Annabella entendia agora por que a escolha deste lugar. Era como olhar para uma ferida boba. Algo pequeno, superficial.
- Não sei o que dizer, Miriela. Tudo que disse parece lhe doer a existência.
Annabella pôs a mão no ombro da outra.
- Desculpe. Eu precisava contar a alguém. Como sabia que você não tem sentimentos profundos, eu a escolhi para descarregar tantas coisas. Me entristece saber o que está por vir.
Annabella continuava parecendo perdida. Era muito a se dizer em tão pouco tempo.
- E eu sei que estamos sendo controladas pelo ser que criou tudo. Ele nos observa e nos controla. Mas ele sente a nossa dor. Eu posso sentir. Ele fala através de todos aqueles que controla. Mas o Ser é incontrolável. Ele, Rokan Omikron, é a mais pura forma de falta de controle. É o ser mais perfeito que existe nessa criação. Uma imagem refletida das ousadias enterradas de nosso criador.
Miriela olhou novamente para Annabella.
- Vamos. Vamos para casa descansar. Nossa hora está chegando. Maldito seja aquele que nos manipula de forma tão vil. E maldito seja o Ser.
Elas olham para cima. Esperam que algo venha, mas nada vem. Ainda assim, elas desaparecem e aqueles que as observavam dos cantos escuros da cidade em ruínas choram. Nunca antes haviam visto seres tão belos e tão doloridos. Era como se uma força maior mandasse que todos sentassem por um minuto para chorar.
que porre esse texto..aff